quarta-feira, 15 de junho de 2011

Com pior salário do Brasil, bombeiros do Rio sofrem com dívidas e dupla jornada de trabalho

O movimento dos bombeiros do Rio de Janeiro na luta por melhores salários surpreendeu a população não apenas pela capacidade de mobilização dos militares e de suas famílias, mas também por expor a situação de uma tropa insatisfeita. Com o pior salário da categoria no país, os bombeiros fluminenses sofrem com endividamentos. A maioria mantém dupla jornada de trabalho, com os chamados "bicos" nos dias de folga.

Um bombeiro sem dependentes começa ganhando R$ 1.198,24, enquanto que os que declaram os dependentes recebem R$ 1.416,89, sem contar as gratificações. Com uma remuneração carregada de “penduricalhos” (auxílio-moradia e a auxílio-dependentes, por exemplo) não incorporados ao salário quando o militar se aposenta, a maioria dos bombeiros faz bicos para complementar a renda.

O salário defasado faz com que muitos deles estejam atolados em empréstimos consignados, o que aflige boa parcela dos servidores públicos. Há casos de militares com até sete empréstimos descontados direto na folha de pagamento.

A seguir, os depoimentos de alguns dos bombeiros que se destacaram nas negociações (eles não gostam de serem chamados de líderes) mostram que as dificuldades financeiras são compartilhada por quase todos, até mesmo por oficiais. Entretanto, apesar disso, todos são unânimes ao expressar amor e vocação à profissão.
Cabo Benevenuto Daciolo, bombeiro há 12 anos e pai de duas crianças
- Fui estudar o 2º grau nos Estados Unidos, onde comecei a sonhar em ser guarda-vidas. Estou fazendo pós-graduação. Tive base. Quando entrei nos bombeiros, encontrei uma série de problemas e dificuldades. Só continuo por amor. Hoje, 99% da tropa mora em comunidades e muitos sequer têm comida direito. Falta um monte de coisas. Os contracheques são carregados de empréstimos.

Sargento Valdelei Duarte, bombeiro há 30 anos. Foi preso com o filho em Niterói. Seu neto também é bombeiro

- Desde criança, não podia ver uma viatura dos bombeiros que corria pra ver. As pessoas até debochavam de mim. Isso já nasceu comigo. Logo no primeiro concurso, eu passei. Foi uma benção. Agora criaram essa cultura de que bombeiro tem que fazer bico, mas temos dedicação exclusiva. Imagina se estou fazendo um bico e o comandante me chama. O que eu vou fazer? Tenho colegas com sete, oito empréstimos. É muito difícil ser bombeiro dessa forma. Vamos lutar por todos e tentar mudar essa situação.

Cabo Baltar, bombeiro há 12 anos

- Não largo [a profissão], porque gosto do que faço. Mas tenho que conciliar o “bico” com o serviço na corporação. Se não fosse assim, não teria como sustentar minha família. Minhas filhas só conseguem estudar em escola particular, porque tenho outros emprego.

Cabo Fabiano, bombeiro há 14 anos e pai de um filho de 11 anos

- São 14 anos de corporação. Trabalho no 2º Gmar (Barra) e sou pai de um menino de 11 anos. Com esse salário, não dá para ter mais de um filho. Faço bico como guardião de piscina nos dias que tenho folga nos bombeiros. Ou seja, quando deveria estar de folga, estou trabalhando. Em um mês, trabalho, em média, 25 dias. Fiquei muito enaltecido com o apoio da população.

Capitão Bilbao, bombeiro há nove anos

- O salário é tão baixo que, quando quero comprar alguma coisa, tenho que pegar empréstimo. Tenho mais de cinco no meu contracheque, porque o salário não dá. Faço bicos dando aulas sobre como combater incêndios. A partir do momento em que nós conseguimos expor nossa situação, a população ficou do nosso lado. Nós já esperávamos isso, mas superou demais todas as expectativas.

Capitão de Marco, bombeiro há nove anos

- Como capitão no Rio de Janeiro, meu salário é menor do que de um soldado de Brasília. E olha que são sete postos de diferença entre as duas patentes.

Fonte:R7

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